Amor, de que serve continuarmos a dançar agora que todas as coisas se começaram a mover?


Antes que me esqueça, Madalena.

1. Pratica a arte da boa vizinhança: estás numa terra pequena, não sejas opaco.
2. Dá o máximo de ti, pede aos outros o máximo. A escassez não vale uma vida.
3. O alheamento não vale uma vida.
4. Faz-te conhecer pelos gestos de todos os dias; mesmo os gestos neutros; mesmo os inúteis.
5. Não deixes nunca de contrastar os homens sobre as pedras.
6. Saboreia os teus trajectos com uma paixão minuciosa.
7. Mas reserva-te para a surpresa e para o imprevisto (como no trabalho).
8. Vive direito. Vive claro. Evita enganar-te neste ponto.
9. Aceita os outros, que são sempre diversos.
10. Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória. Em todo o caso não a forces.

Fernando Assis Pacheco, Regras para Viver em Campo de Ourique

Do turismo da tragédia.

Vi-o como em primeira mão, chegando ao ponto de envergonhar-me de estarmos todos ali e começar a sentir uma sensação visceral de náusea, quase nojo pela inconsciência de tantas fotos, Instagrams e sorrisos. Pompeia foi o primeiro destino do turismo da tragédia. A mesma coisa mais tarde, no museu da Segunda Guerra Mundial, em Gdansk. Pagamos para ver da guerra, como se a Síria, tantos outros, não fossem esse espectáculo macabro de gratuito. Somos, é verdade, um bando de hipócritas.

Falar da cona na rua é um acto político.


Diz que "isso a que chamam amor é trabalho não pago". Quem diria que o feminismo, afinal, é um capitalismo insuspeito.

Irene. Assenta-lhe bem o nome.

A solidão só consegue ser boa se tivermos a quem a contar.

Não caias na tentação de confundir solidão com aborrecimento.

I married my best friend.

Pessoas que gostam muito de dizer que casaram com o seu melhor amigo são, geralmente, aquelas que têm sexo ternurento e um perfil de casal no Facebook. São também as que não gostam de dizer que já não têm amigos para sair.

Estou a achar este post delicioso: rastreio de conice.

Pessoas que, referindo-se a qualquer-coisa-que-não-é-comida, como ideias, conceitos, comentários, conteúdos, acham tudo "delicioso". Diz-me a experiência que, geralmente, são as mesmas pessoas que vão a conferências sobre coaching.

You don’t get to say I’m bored.

Viajar tem tanto de deslumbrante quanto a neve: parece tudo muito bonito até levares com ela na tromba todos os dias.

I love such beginnings, with no preface, raw, hard.

Pôs-se a fazer contas à vida e, quando deu por isso, já estava para morrer.

(do livro, uma primeira tentativa)

The world was simple and ordered, simply ordered. On Wednesdays – fish, on Friday – Russian TV.

Os meus sucessos ao LinkedIn, as minhas parvoíces no Facebook, os meus fracassos no blog, a ti, segredo maior, o secreto da vida, ela toda.

Nós já somos alguém na vida.

Perguntaram-lhe como é que não se ia abaixo e respondeu-lhes que não tinha vagar para isso, quase como a outra que não podia apanhar sarampo porque tinha mais que fazer. Não dista muito disto. Ainda não falei do assombro daquele livro e já está ele este mês a lançar outro. Ainda não contei da cor azul em Ravello e já se descobriram novas sombras de azul em Villefranche sur Mer. Ainda ontem era Sábado e eu conhecia-te o redor dos dedos. Contra a vontade ou a favor dela, as horas não se quedam, só se somam. Faremos o que pudermos. Até que tudo se detenha, somos alguém na vida.

It's not a love song.

 

You got a real nice cock, Mr. Willoughby.

Matou-se no dia mais feliz da sua vida. Queria deixar a sua melhor memória.

(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri merece ganhar um Óscar.)

Quero que se foda o sublime.

Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar. 

Jorge Roque, in Canção da Vida

Não passeies o teu amor rente ao precipício.

No topo de Machu Picchu, fiz o que se espera da loucura, rente ao precípio. Quebrei o silêncio e o vazio dizendo o teu nome em voz alta, meu amuleto. Ninguém ouviu mas gosto de acreditar que te viraste na cama nesse momento, entrando feliz no meu sonho. Era esta a viagem que me falaste, primeira entre todas.

Tenho um coração, e isto dito assim é um assombro.

A pessoa que abusa dos nomes próprios, máscara mais perfeita da confiança, é a mesma que se desequilibra e se estranha no chamado do seu. Reparo-o agora como anunciação: àqueles que amo, não os beijo. Àqueles que amo, não os chamo. Escapa-me o sentido de dizer em voz alta quem sou. Eu sou eles, eles são comigo. Ela troça, cantando 'say my name´.

You should only read what is truly good or what is frankly bad.

Li, finalmente, algo de Adília Lopes, Bandolim. Dali, aproveitei apenas uma coisa, o conhecimento sobre a teoria das catástrofes, conceito belíssimo, quase ao mesmo nível da descoberta fantástica da micro-nação de Liberland. Imagine-se, hoje vou construir um País. 

Saber escolher quais os livros a comprar e quais aqueles a pedir pelo Natal é, de si, uma arte que não deve ser menosprezada.

Devias querer vida em vez de palavras.

Porventura, nunca fui tão notada profissionalmente quanto agora. Do mesmo modo, nunca me senti tão inútil. Talvez apenas no sono sejamos reais.

Isto serve para quê?

O mistério não pede que o expliques. O mistério pede que sejas misterioso.

Fico sem perceber se gostaste, disse. E eu penso que, tal como de deus, o menos interessante que se pode discutir é se existe ou não, também dos lugares, de um filme, de um livro, de uma música, ou de outra peça de arte, a maior inutilidade é dizer-se se gostamos ou não.

Pero mi amor no hay problema.



Ouvi tanto dos Tukas del Peru, Felices Los 4, Enrique Iglesias, Piso 21, Luis Fonsi e companhia recentemente que quase estou com medo de querer ir p'ro zumba.

Apontamentos de uma viagem: Anita tira um ano sabático para ir ao zoo visitar os animais em vias de extinção.

De um lado, eles, que se dispõem em fila, nas suas roupas tradicionais, e fazem habilidades em troca de uma moeda. Do outro lado, aqueles outros, os das experiências como quem preenche checklists e que partem, aventureiros e sozinhos, em busca do autêntico. Haverão de dizer um dia que aquilo era a liberdade, inúteis ou indiferentes às grades por onde seguiam observando os animais do zoo. Alguns, tiram fotografias às crias e imprimem-nas em papel de alta qualidade, a colocar emolduradas na parede da sala, por cima do sofá.

Apontamentos de uma viagem: Das profissões.

Para atestares da real utilidade da tua profissão, procura-a num país em vias de desenvolvimento.

Apontamentos de uma viagem: Taxis.

O nível de desenvolvimento de um país mede-se pelo percentagem de taxistas entre a população.

Apontamentos de uma viagem: Os Livros.

Encontrei Lobo Antunes entre outros génios da literatura universal, na montra principal de uma livraria em Lima, onde os livros são embrulhados em plástico nas estantes. É este ano que voltamos a ganhar o Nobel.

Apontamentos de uma viagem: Nacionalidade.

Nas vidas do trabalho, sou do UK. Nas vidas da vida, sou de Portugal. Pertenço, cada vez menos, aos dois.