Finally feel everything joining underneath.

Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio.

Tu não entendes porque vou e eu não sei explicar-te. Ou talvez tu até entendas e eu até saiba. Seja como for, este é um daqueles tipos de conhecimento, como outros, que concordamos em manter silenciados. Talvez falemos do tempo ou da comida. É melhor assim. Há afectos que só chegam ao seu destino como murmúrios e não há mal nisso. No universo que vai das nossas memórias aos nossos futuros, sempre houve espaço para tudo. O que vem de longe, o que vem do fundo, é sempre um gesto incompleto. Diz-se baixinho como se dizem as orações.

Um dia viste-me naquela limpidez inolvidável dos teus olhos, sete-luas, sete-sóis, sete-vidas, minha gata, e ficou logo ali tudo sabido e a descoberto, a nudez mais frágil e perigosa, essa. Depois disso, mesmo a aprendizagem dos silêncios foi apenas o percorrer dum tempo fácil e feliz. A felicidade sempre foi contigo tão fácil que dói.

É por isso que volto e não falaremos disto, como não falamos de tanta coisa. Por vezes é preciso voltar ao sítio onde esquecemos o coração na esperança de que ainda nos reconheça e, grato e saudoso, regresse ao peito. Até que regresse sozinho e por vontade própria.

Das expectativas (ou Dos enganos).

Não é o que dizes, é se fizeste, ou não, a depilação.

Não procures a noite por não suportares o dia.

Matou-se o João Orelhó. Matou-se o sr. João do gás, que morava ao pé do 100 à hora, digamos assim para que não se confundam. A morte do sr. João é outro sinal do tempo que teima em passar demasiado depressa. O mesmo tempo de catequeses e coros de jovens, ir ao café buscar garrafões de vinho ou à senhora Teresa comprar pescada congelada, ir passear o cão e dar boas-tardes aos velhos do banco ao pé da igreja, ir ao sr. João encomendar gás e acenar-lhe um adeus de amigos sempre que passava por mim de carro. Desta vez, foi o sr. João. Decidiu matar-se antes que o cancro o matasse a ele.

No espaço de menos de uma década, este é já o terceiro suicídio no meu pacato lugar. Para uma aldeia sobre a qual sei dizer pelos dedos das mãos os nomes das ruas, não sei bem o que significa isto, se estamos a tornar-nos uma aldeia demasiado progressista ou demasiado deprimida.

Aos poucos, vai-se enterrando em cada cova nova do cemitério a minha adolescência.

You're still clinging to that notion.

Lembras-te do Zmar?

Penso neles mais vezes do que aquelas que gostaria de admitir. Os que não conheço, os que nunca vão conhecer. Penso em todos. Entendo-lhes, sobretudo, o fascínio, o mesmo acordar da alma, a persistência daquele fogo no lugar do peito. Julgo entendê-los. De certa forma, somos a mesma pessoa. Une-nos o mesmo precipício, queda mais que perfeita e que repetiríamos sem hesitação. Procuro justificá-la e sei que começa aí o meu erro.

No fim, regressa-se sempre ao princípio. Sei enumerar com exactidão o que me chamou até si. Era um tempo de polaróides e do amor criado a palavras. Hoje creio que as nossas coordenadas não são menos a coincidência dum acaso do que o traço jocoso de um deus que nos observa. Penso no início e pergunto-me do sítio onde se incendiou primeiro o silêncio. Oiço-lhe o riso. O Zmar ardeu.

Un líquido es un estado de la materia sin una forma en particular. Cambia fácilmente y sólo queda definido por el recipiente que lo contiene.

Assim nós. O que somos depende em muito do que nos contém, quais as caixas e caixinhas que nos dão forma. Como líquidos, adaptamo-nos. Fazemos por adaptarmo-nos ou somos forçados a adaptar-nos. Nunca deixo de fascinar-me nessa capacidade, barro em mãos de oleiro porvir, os extremos que não podemos sequer sonhar. Quando olhares para trás, serei outra.

Quando te pisam os calcanhares, quem és?

No me toques los cojones. Nem no paraíso há inocentes, perde-se tudo. A inocência, a dignidade, a caridade. As fronteiras esbatem-se, os papéis invertem-se. A sombra esconde a todos e até os predadores têm afectos. Não te tornas aquilo que és, mas aquilo que aceitas ser. Então os ímpios confundem-se com os puros, o agredido feito agressor, só sabes onde chegaste quando lá chegares, só sabes o que não sabes até que o saibas. Quando perdes tudo, quem fica? Até onde vais?

Consta que o corpo humano é formado por 70% de água e faz sentido.

(Dos líquidos: Maca Ferreiro e Zulema Zahir)

Pode ser-se feliz sozinho?

Fazer depender a nossa felicidade (da felicidade) de outros é, de certa forma, um duplo acto: tão inevitável quanto perigoso.

Por aí, família?

Não me leva a sério ou, leva, mas tem aquele meio sorriso, meio tapado pela mão, de quem pagava para ver. Dizem-me que sou dele uma cópia perfeita por isso o sei: aquele meio sorriso é o mesmo que o meu. Herdei dele mais coisas do que gostaria, mas, suponho que seja sempre assim. Sorrimos da mesma maneira, envergonhamo-nos da mesma maneira, irritamo-nos da mesma maneira. Argumentamos nas mesmas palavras fracas, uma espécie de meios argumentos, quebramos do mesmo modo, à mesma velocidade, amuamos igual e a vida pode passar-nos à frente sem que a víssemos, cegos da mesma maneira. Ao primeiro encontro, tem a ver com o idioma dos olhos, o mesmo franzir de sobrancelhas, uma certa posição das mãos enquanto esperamos, vemos as notícias ou nos exasperamos.

Ouve-me com orgulho, mas não sabe explicar bem de quê. Às vezes, digo-lhe que sou a melhor só para obrigá-lo a duvidar. Interessa-se pelo que não entende, mas vê pouca utilidade nisto e eu só lhe posso dar razão. Na escala maior das coisas, é verdade, isto não serve de muito. Já os feijões. E começa então a contar da feira em Espanha e dos tamanhos e cores e variedades. Quando os outros vão, já ele veio. Foi sempre assim e ainda bem.

Quando falam da distância, dos horrores da distância, das relações que não sobrevivem à distância, é neles que penso. Nunca estivemos tão próximos como agora, distantes.

Querem acabar com a riqueza.

You're way ahead by now.

Warning: when your flight takes off from Prague, your heart will remain.

Avisam-nos mal aterramos. As letras grandes, à altura dos olhos. Tentemos uma explicação.

As ruas calcetadas, os trams, Václav Havel e a revolução de veludo, os judeus e as histórias sobre o Golem. Kampa. O Grand Café Orient. Klobásy, Trdelník ou Trdlo, que me faz rir por me lembar o trolaró. A língua cheia de v e l e k. Merkel a ser Merkelova, Josefova, Marisova, Karalhova. Pivo, a cerveja, naturalmente, que, mesmo não sendo eu de cerveja, permitiu-me criar com carinho uma barriga de estimação. A X33 no U Medvídků que, graças a deus, os turistas ainda não descobriram, e o seu sabor doce, 12,5%, senhores!, forte e doce, viciante como tudo o que gosto. A minha ginja, o meu moscatel, a tua boca de repetir.

A arte a conduzir à arte como faz sentido ser. Bohumil Hrabal de Perkeo no colo, rodeado de gatos. Outro bêbado, o bêbado de Palmovka. Não sei onde desencantei este gosto por escritores bêbados, se é a escrita que os faz bêbados ou se é a bebida que os faz escritores, mas sei que há neles a verdade. Ninguém diz tanto a verdade como um bêbado. Descobrir Hrabal e ter de ir a correr saber-lhe as dores. Ler de empreitada, como há tanto não acontecia, só para que me conte que o céu não é humano e que me segrede que somos que nem azeitonas, é quando esmagados que se sabe o valor que levamos dentro. E Kafka tão perdido, ou mais perdida eu, que sempre pensei ser a Metarmofose a obra-prima e, vai-se a ver, e é o Julgamento ou o Castelo. Encontrei-o no Café Louvre e numa rua em que ninguém parou. Kundera ainda mais. Coitado, ainda não morreu.

A serendipidade que nunca há-de deixar de maravilhar-me. De certa forma, vivemos todos para isto, a fortuna de um par de acidentes felizes, a deriva do acaso que sempre faz por nos encontrar. Sem querer, dou por mim no subúrbio duma noite, luzes coloridas que animam o fim da tarde, pessoas felizes que riem e bebem e dançam ao largo do trânsito. Choose to be happy. Depois,  a festa da aldeia, ia eu p'ra ver o comunismo e suas conspirações, e encontro o melhor hamburguer de Praga, palavra de Dalai Lama. You've come along a long way, baby. É bonito, isto.

O Klementinum. Depois da mais bonita livraria do mundo, a mais bonita biblioteca do mundo, a vida quase feita. Um cheiro a livros que nos entra pelas narinas adentro mal a porta se abre, os olhos que não encontram sítio onde pousar porque se quer tudo e a palavra é imensa.

O sem-abrigo Joe que, muito provavelmente, não se chama Joe, na sua cabeleira branca a contrastar na sua cara muito vermelha de Sol, desdentado e que me fez companhia num banco de jardim, enquanto fumava um cigarro. Ele não sabe a minha língua e eu não sei a dele e, mesmo assim, repete o meu nome na perfeição. Marisa. Ri-se muito quando lhe dou um passou-bem. Vai dizendo coisas que não entendo e nenhuma me parece palavra de pedir. Pergunta se sou turista. Depois passa um rapaz vestido de copo de cerveja, não perguntemos porquê, e o Joe ri-se muito e alto na sua boca desdentada. Parece uma pessoa feliz, o que é logo meio caminho andado para se ser, de facto, feliz. Entretanto, olha-me e, no meu nulo entendimento de checo mas merlhorzito nos gestos mais básicos, diz-me que tenho umas boas mamas. Se era isto ou não, é agora difícil apurar mas ele continou a rir-se e eu ri-me com ele. Nada melhor do que conviver com um sem-abrigo para nos elevar o ego. No fim, beija-me a mão com um Au revoir. Assim é o Joe.

Depois há, claro, o castelo, a vista do castelo, as ruas que levam ao castelo, as casas, as ricas e as esventradas, a old town, as torres da igreja, a casa dançante, o rio, a morte iniciando o seu teatro a cada hora, entre santos, apóstolos, signos, estrelas, numerais, cardinais. Esta, afinal, uma terra de astronomia, alquimia e outra sorte de magias. Depois há, claro, a praga de turistas na Charles Bridge, a dar nome à cidade. No silêncio do impossível, quando todas as pragas regressam em manada aos seus hotéis e a noite ganha o princípio de um nevoeiro, é aquele o melhor sítio para sentir a cidade respirar, centenas de anos de história debaixo das pedras dos pés e o alinhamento perfeito dos astros em cada estátua, a via sacra de todas as reflexões e consagrações, caminho de saudade e perdão, começos e fins.

Pouca coisa me impressionou mais do que os mendigos, porém. Primeiro, a mendicidade dos turistas, a mendigar milagres, desejos e caprichos em fila, esfregando o corpo dourado, incandescente, da imagem do santo milagreiro, não há pai que aguente. Esfregadinho, esfregadinho, esfregadinho, como diria a minha avó se visse aquele espectáculo. Finalmente, a mendicidade dos mendigos porque só ali vi mendigos assim. Ajoelhados e de cotovelos no chão, outros, de quatro, sempre de cabeça baixa para que não ofendam ao dono em passeio. Prostrados, subjugados de meter dó, não tanto na sua invisibilidade quanto mais na ausência de vergonha. Esta, a praga que lhes rogaram.

Esta, a Praga que me rogaram.

Too loud a solitude

Eis o meu momento Bridget Jones: entrar num restaurante para jantar, sozinha, e começar a tocar o "All by Myself".

O segredo para uma vida boa é levar uma boa vida (sim, ando sempre na boa vida).

Por vezes, as coisas são tão óbvias, que têm de ser lembradas para que não as esqueçamos: o dinheiro só tem valor quando é usado.

Da série coisas que me fazem muita confusão à cabeça

Segways (e pessoas que visitam cidades em segways).

Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi ela que compôs.

Não precisa nem vir abraçar…é só estar vivo que já tá beleza.


Esperar é ainda uma ocupação. Terrível é não ter nada que esperar.

Perguntam-me quando volto. Mais tarde ou mais cedo, todos falam de voltar. Todos os dias são dias de refazer a vida, afinal. Oiço-lhes os argumentos, os planos, onde se enganam e se esperançam com mais ou menos confiança, as ruas que ainda querem cruzar, as saudades de todos os dias, as contas de subtrair e somar dinheiros e filhos. Têm sonhos, ainda. Levam malas, projectos, desgostos e queixas, mas baixam menos os olhos, dir-se-ia que agora vêem mais longe, mais fundo. Podem mais e sabem que podem mais. Conheço-lhes os dramas, partilho do mesmo pão e do mesmo vinho, mas resisto às certezas como quem resiste a qualquer outro infortúnio. Porque o problema da vida, é que continua. Porque a beleza da vida, é que continua.

Não sei quando volto nem para onde vou. Qual, aquele momento em que podemos garantir que basta, já chega? A vida é tão grande e o mundo, mesmo assim, consegue ser tão pequeno. Junto ao mar, o rio parece sempre pouco, disso sei. Sei do vento e sei do céu, sei da tua boca e de histórias de amor, sei de coisas que só as aves sabem, horas em que me faltas e o tempo que me falta. Só não sei quando volto. Só não sei se volto.

Vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado de desastre.

Sigo conselhos da mesma forma que sigo direcções: fixo os olhos de quem me fala, aceno a cabeça como ditam as regras da comunicação assertiva, repito, esquerda, cruzamento, semáforos, virar à direita, 500 metros, virar à esquerda. Depois vou por onde me apetece ou por onde me parece fazer mais sentido. Resulta sempre.

Do you think you’re more intelligent than the average person?

Pior do que não saber falar, é não saber ouvir. Pior do que não saber ouvir é, ouvindo, não saber entender.

If you find yourself in a hole, the first thing to do is stop digging.

Começa assim. Um esquecimento que se torna preguiça que se torna má-educação que se torna vergonha que se torna silêncio. Depois, é como qualquer maleita ou arrependimento: se não se actuar de imediato, o tempo trata de acontecer, tomando o resto do corpo até que toda a palavra seja só um sobrar de ridículo. Cada dia sem resposta é um poço que se agiganta. Acaba assim.

Depois estranham.

Da série coisas que me fazem muita confusão à cabeça

Pessoas ocupadas.

Da série coisas que me fazem muita confusão à cabeça

Jet lag.

Eu sou mais forte. Eu vou superar-me. Eu sou a maior.

Começa amanhã.

#umobjectivopordia