And if I never let you go will you keep me young?


Madalena.

És o nome que não digo com medo de estragar.

Não o amor, mas os arredores é que vale a pena.

Atraquei nos teus textos ontem à noite e entusiasmei-me, como antes, como sempre, no teu respeito às palavras. Se há padrões e tendências que as palavras nos reflectem, a tua palavra maior não é, como julgava, a liberdade, mas a felicidade, uma alimentando-se da outra. Faz sentido.

De certo modo, poderia dizer-se que te amei por escrito. Tu, a definição mais próxima de felicidade.

O medo é como o amor: contagioso.

É o seu medo que faz o meu medo. É a sua não indignação que faz a minha.

O oftalmologista.

É demasiado fácil esquecê-lo. As nossas vidas seguem a velocidades diferentes e os lugares em que coincidimos são episódios remotos. Cansa-se mais depressa, precisa de mais tempo e é verdade que sorri menos, custa-lhe a cabeça, a vista, a luz, o som, o silêncio. De repente, custa-lhe a vida e os dias ficaram todos mais pesados, as noites mais próximas dum sobressalto. Para mim, reserva sempre um esforço. Não me deixa partir sem um sorriso. Contudo, bem sei que o que se vê nem sempre iguala o que se é, há uma dissonância que a lonjura não me permite dizer mas da qual tenho de desconfiar. Primeiro os pulmões e eu no dentista finalmente a entender o que é o medo. Depois, as pernas, o cheiro, a cor a abismo. Agora isto, um acumular de insuficiências a bloquear o futuro, o dela, o meu, o nosso. À força do auto-elogio, da coragem, da determinação, da felicidade tão abundante e por isso tão artificial, é demasiado fácil esquecer que cada hora é luta, cada despertar, vitória. É fácil esquecer os fantasmas que não vemos, o mundo que não palpamos. Envergonho-me sempre que penso o pior. Escrevê-lo, até. E só peço que ele não me ligue. Como se pensá-lo fosse desejá-lo ou agoirá-lo. Envergonho-me por esquecer e envergonho-me quando não consigo esquecer. Sempre enganou a todos e por isso é demasiado fácil.

Nothing is more inspiring than a person who hasn’t posted anything on Facebook since 2012.

Não lhes basta ver. Mais grave, não lhes basta existir. Como ele diz, tudo na vida é incrível mas todos parecem aborrecidos. Porque o importante é não ficar parado, porque parar é morrer, porque a vida é feita de experiências, porque o velho está gasto e o novo é sempre tão excitante. Porque é moda e porque eu sou especial, porque me desafio e me ultrapasso. Porque a vida é curta, dois dias, porque o que importa é o agora, carpe diem, YOLO. Porque eu consigo e eu quero e eu sou.

É nisto que penso quando ela conta que no passado fim-de-semana foi experimentar uma consciousness spa rave, onde fez banhos de gongos e bebeu shots de chocolate puro, de onde todos saíram felizes e contentes, cheios de uma alegria inexplicável de viver.

Relembro o Manuel António Pina irritado e desgostoso de teimarem em lhe ligarem a televisão enquanto esteve internado no hospital. Ele que só queria estar a sós com os seus pensamentos. Só ele e o silêncio.

Turn on or I haven’t been everywhere, but it’s on my list.

Telefonar para restaurantes noutros Países a reservar mesa para Domingo.

If you need me to prove my humanity, I’m not the one who’s not human.

Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha.

O Brasil é capaz de produzir um Chico Buarque: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque gaúcho, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado por Chico e transformado em coloquialismo sem esforço. Vimos melhor e com mais calma o quanto já tínhamos Noel, Haroldo Barbosa, Caymmi, Wilson Batista, Ary, Sinhô, Herivelto. A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Chico está em tudo. Tudo está na dicção límpida de Chico. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto o Brasil. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos. 

Caetano Veloso, sobre Chico Buarque

Ya dijimos no pero el si esta en todo.


Queria que soubesses a vontade que tenho de te escrever.

Ela - Quando pensas em mim, pensas em quê?
Eu - Penso se fazes covinhas quando sorris. 

(só ia procurar um vale de 5 Euros da Bertrand, garanto-te, mas esta história é tão bonita.)

Não discuto com o destino. O que pintar, eu assino.

No dia em que mudava de casa, tu mudavas de País. Eu, que procuro sinais como quem navegasse à deriva pelo universo em busca de rumo, acreditei que haveria isto de conduzir a um qualquer significado ainda à espera de ser decifrado. Continuariam a haver destas coincidências, secretos entendimentos do porvir mas, umas sempre pesam mais do que outras, há injustiça e disparidade até nos destinos de cada um, talvez sobretudo aí. Enquanto espero a clarividência que o tempo traz, sigo-te o percurso à distância. De todos, és de quem não tenho dúvidas, a certeza latente que me deste desde o primeiro dia. O futuro pertence-te.

Coisa feia, a inveja.

Pese embora a duvidosa qualidade do material, há que atribuir mérito às capacidades imaginativas de quem está por detrás do marketing dos novos autores Portugueses. Eis que, depois dessa estrela em ascensão que é o Raúl Minh’Alma, nos chega o Afonso Noite-Luar. Coisa mais linda.

Dos lobbies.

Descobri recentemente que o lobby gay é dos mais poderosos do mundo. Alguém me pode apresentar, se faz favor?

Não concordo.

Faz-me confusão quando, falando-se de homossexualidade, alguém diz que não concorda. É uma reacção incomensurável e tão estranha quanto o dizer-se que não se concorda com o facto do sol ser redondo, de existirem pessoas loiras, ou dos gatos miarem. Existe, assim é, o que há para concordar ou discordar?

Não estiveram no terreno, não fazem ideia (...) não venham com teorias, não venham cá dizer que bombeiros não prestam, os técnicos não prestam, que ninguém percebe de incêndios.

Não existem palavras. Enquanto os números iam aumentando, dezoito, trinta, quarenta, cinquenta, só nos restava o vazio da perplexidade. Estávamos sem palavras, dizíamos todos. Hoje, ainda. Por vezes, escrever é só um absurdo necessário de inútil com que expiamos a dor para que não nos engula inteira. Isto não são palavras. Não as há. É somente um murmúrio, uma ausência que ficou.

Seria bom que pudéssemos entender o silêncio. Talvez respeitá-lo um bocadinho. Na morte, como na vida, tudo tem o seu momento. Ainda a cinza não se quedou, os mortos se choraram, e vamos já todos apressados em busca de culpas, de preferência com demissões imediatas e um pedido de desculpas, porque não merecíamos isto. O desespero é ingrato e bipolar. Há quem esteja a fazer tudo o que pode mas, alto lá, que não se diga que se fez tudo o que se pôde. Conseguimos ser solidários mas também cruéis. Porque a quem é pequeno, qualquer um parece grande, convertemos homens em heróis e trocamos de bom grado a nossa indiferença pelo respeito nos dias bons e a crítica nos restantes. Que se abrace o abraço mas, calma, que o afecto não salva ninguém. Estamos juntos, sim, mas não é juntinhos e não é com todos, que há por aí muitos presos à boa vida para limpar matas. Os jornais, atentos, inflamam tudo. Já não basta informar, é preciso dar motivos ao povo para que se indigne ou, a não ser possível, ao menos que sirva para os likes e partilhas, esforcemos-nos todos por encontrar a história mais triste, quem perdeu mais gente e, do nosso poleiro, façamos as perguntas mais descabidas, esperemos pelo choro, um gritinho de comoção aqui para a câmara se faz favor, e demos graças por não estarmos na pele daqueles pobres coitados.

Não concebemos perguntas sem resposta. Na tragédia só há inexplicável, porém. Somos humanos, filhos de deuses, os senhores da terra. Nada disto faz sentido, o inferno sendo afinal aqui e nós tão seguros e descansados de que se situava num outro qualquer lugar, não dentro mas longe de nós. Todos os dias morrem pessoas no mundo mas, como olhar aquela avó, aquele pai, aquele namorado, vizinhos, familiares, sem que morramos nós também? Sem que pensemos nos carros, no fumo, no sufoco? Um a dizer que ‘podíamos ter morrido, devíamos ter morrido’, ela que não pode aceitar que a ordem da vida se inverta assim, ir ao funeral dum neto, a outra gritando em aflição ‘ai, a minha casa’ e à segunda vez, mais alto, levando-me sempre consigo, ‘ai, a minha casa’ e as minhas mãos em pressa à boca.

Não é possível tomar as dores dos outros mas é possível reconhecer nelas as nossas. Só não é possível explicar. Não há palavras para isso. Não há metáforas para o fogo. Que pudéssemos então ao menos calar, só um bocadinho.

É a vida ou a morte, o combate?

O problema da morte é que fica com quem fica.

Do Titanic, à Grenfell Tower ou ao Pedrógão

Não é a morte, é a clarividência da morte. Não é a morte, é a espera da morte.

Arrancar a vida ao dia-a-dia, será isso a poesia.


Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender.

Diremos que se tratou de um incidente feliz. You are a fortunate accident. Pronto, já passou. Há momentos assim. No último minuto, cedemos ao rescaldo e deixamos que a vida nos lembre, largamos a razão e vamos porque podemos ir, que se foda. É do que mais gosto, quando finalmente cedes. Reparaste como foi fácil o riso, fluente a vontade? 

A verdade é que não estamos habituados a dizer os sentimentos em voz alta. Fui, por isso, tão surpresa na forma como no conteúdo, tanto no gesto como na palavra. As nossas vulnerabilidades são permeáveis. Tocam-se, conhecem-se, misturam-se. Sei o teu medo mas não me mete medo. É um elemento decorativo que convém não perder de vista, claro, importante para que nos mantenhamos alerta. Afinal, já cruzámos todos os caminhos possíveis, já testámos todos os tempos verbais. Não há para onde irmos e há nisso a beleza de podemos ir agora aonde quisermos, sem passado e sem futuro. Diz a palavra e deixa arder.

Além do mais, foste quem me falou do ridículo de se amar muito, o contraditório de se medir o que não é de medir. Mesmo a canção é uma falácia: os sentimentos, como a identidade, são pessoais e intransmissíveis. Existem por si, bastam-se por si. Não sei por isso o quanto gosto de ti, se é pouco ou se é demasiado. Não sei sequer se isso importa. Já tu, parece-me, gostas demasiado de mim. Tanto, ao ponto de quereres proteger-me.

Diz-me uma coisa que não seja questão de tempo.




Os outros não sabem nada.

Quero falar-lhes de ti mas não quero que me respondam. Não entendem, logo, lógica mais certa das premissas do professor Fausto, não posso falar-lhe de ti. Entende melhor a solidão.

The Fermi paradox: Where is everybody?

Não confies em pessoas que dissertam sobre a alma ou que, referindo-se a outras, dizem "tem uma alma bonita". Pode bem ser que leiam Raúl Minh'alma, Pedro Chagas Freitas, ou até mesmo Gustavo Santos.

Siempre me quedara.


And don't forget: time is meant to be wasted, love fails and death is useless.

Por todas as vezes anunciei uma despedida. Inevitabilidade, decisão, lamento ou redenção. A todas atribuí motivo, quando o motivo sempre foste tu. Dizer afinal seria perjúrio. Afinal, sempre o soube. Anos primeiros, anos depois, anos-eternidade. Quanto tempo vai de mim a ti? Da palavra original até este instante? O tempo, com a paciência que cabe aos omniscientes, sempre me enganou. Ainda não, ainda não. Há o espectáculo da vida, o inesperado de sermos gente e o milagre das ressurreições impossíveis. Talvez sejam os sentimentos o que existe de mais livre, pássaros felizes que o tecto do céu não detém se é infinito. Minha happybird. Nenhum sentimento se fez para as despedidas. Por isso, nunca nos despedimos. 

Não será ainda hoje. E, porém, nós sabemos. A vizinha do 2º L, lá para os lados do coração, esqueceu-se da chave do lado de dentro da porta e o condomínio foi p’ra obras. Há um certo consolo no que se conhece. Não te sei as linhas da mão mas sei-te portas e janelas, o que é de abrir e o que são portas de fechar. Sei quais os erros de Português que te pertencem. Assim creio, espero e amo, pelos séculos dos séculos, ámen. Chegamos tarde ao entendimento dos corpos, dessincronizado do peito. Uma cama pode ser um País e o dinheiro pode ser um empecilho. O corpo tem razões que a razão não augura e não passa ainda um dia em que afaste da memória o toque da boca. É no imediato da vista que o confirmo. Nunca o saberei fazer. A vontade é aquela besta que dá cabo do desejo, interesseira e cega de egoísmo. Perdoa-me a vontade.

Aos poucos, a vida faz-se. São histórias e cruzamentos, o futuro aqui tão perto. Durante muito tempo não voltarei a este lugar. O café mudou até já de nome e os empregados já não correm a endireitar os talheres numa precisão geométrica. Estamos à tangente do novo. Não sei quanto mais me aguentarei no comboio. Quero ser leve e nem sempre consigo. Depende tanto de nós mas não apenas de nós. Em breve, como no poema, as tuas pernas serão coisas úteis, andantes. Bem sei que não faz mal, que é normal. O tempo não se prende, não se esgota, não se acaba. Tudo isto aprendi contigo. Já passou, já passou.

Na despedida, hoje como todas as vezes, se partires, terei saudades. E, se ficares, terei saudades. Promete-me que não se inventará ainda o tele-transporte.