Acredito que no mundo há flores por abrir.

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo.

Não és melhor do que eu por comeres orgânico, vegetariano, ou sem glúten. Ires ao ginásio todos os dias, dares sangue, ires à missa aos Domingos, não te faz melhor do que eu. Não és melhor do que eu por fazeres voluntariado, nem por meditares, nem por acreditares. Não é por seres herói que és melhor do que eu. Ou vítima, ou nascido numa família problemática, de infância complicada. Teres cancro não te faz ser melhor do que eu. Estares a morrer não te faz ser melhor do que eu. Teres sobrevivido ou seres um lutador não te faz melhor do que eu. Não és melhor do que eu por estares a estudar medicina ou engenharia aeroespacial, por teres média de 20, ou por seres o presidente da junta. Não és melhor do que eu porque tens filhos, porque casaste pela igreja, nem porque tens carro e casa própria. Não és melhor do que eu por morares em Lisboa, no estrangeiro ou no cu de Judas. Ires à Tailândia em Maio e a Cuba em Novembro não te faz ser melhor do que eu. Não és melhor do que eu por seres doutor nem por te chamarem doutor. Teres a colecção completa da enciclopédia Larousse ou seres tu-cá-tu-lá com o xpto não faz de ti melhor do que eu. Não és melhor do que eu por teres um MBA. Teres cinco apelidos e uma Bimby não te faz melhor do que eu. Não é por fazeres greves, por ires a comícios, ou por votares que és melhor do que eu. Falares seis línguas não te faz melhor do que eu. Não és melhor do que eu por não beberes, não fumares, não jogares ou não foderes.

Não são os teus feitos, quem és, ou o que tens. É a forma como tratas os outros.

Às nove no meu blog.

De vez em quando, aparece aqui nova fornada ao engano. É assim que sei que ainda há material a render, mesmo que escreva cada vez menos. Nessas alturas, apetece-me fazer-lhe um favor, passar-me por editora, ou crítica, ou só mesmo mal-dizente.

Esclarecer-lhe, por exemplo, que aquele último foi uma péssima escolha, fraco gosto. Fraca-fraquinha qualidade. Recomendar-lhe, talvez, um par de poetas – agora tem-me dado para a poesia, parente mais próxima duma saudade - , Daniel Faria, o Pina dos gatos, Matilde Campilho, ou o Miguel Martins. Fazem milagres, palavra de honra. Mas, o pior, desactualizado. Até tive de esforçar-me para lhe entender o sentido, repare-se. É que poucas coisas há que sejam tão humilhantes quanto o não reconhecermos a ideia de felicidade, mesmo que agora uma ideia difusa e afastada.

Todavia, assim foi. Aquilo não era meu ou sequer podia ser eu. Mais concretamente, não podia ser meu, pela simples razão de que não versava sobre ela. Trata-se, portanto, duma questão da mais clara lógica para a qual qualquer variante é inadmissível, qualquer justificação implausível. É verdade que são sempre muitas e variadas as formas de amor e de que nenhum engano fui refém. Contudo, há certos sentimentos que exigem um rosto para alcançarem significância, um nome que os marca e que vai além daquele que trazem de nascença. Por isso o reparo, de natureza essencial. É que, para escrever de amor, tenho sempre de escrever sobre ela.

Procedam-se, assim, às designadas erratas, sem prejuízo de adendas. 

(passámos junto à montra da Bertrand e, tendo-lhe dito que aquela pessoa era muito fã da minha escrita, troçou de mim, pois claro.)

Eu também fiquei destruída.

Poucos sentimentos são tão destrutivos como a rejeição, poucos são tão úteis.

Tanta gente que preferia ser a Arábia Saudita.

Dizem que antes é que se estava bem. Uma pessoa baixava a cabeça, se fosse preciso dizia ao guarda que se tinha enganado, não se metia em grandes confusões. Guardavam-se as opiniões, que hoje se dão ao desbarato. Eles na dele e eu na minha e estava tudo bem. Para quê, problemas? Eu respeito-te e tu dás-me a minha fatia de liberdade. Ao menos Salazar morreu pobre mas deixou o País rico, estes, enchem os bolsos e deixam o País pobre. 

(tristes homens, estes que preferem ser escravos ricos do que homens-livres pobres.)

Simples assim (filho, não te enganes).

Não existem pessoas ocupadas. Existem pessoas para as quais não és uma prioridade.

É assim que sei que já sou grande.

Eis que dou por mim a sugerir uma marca de creme anti-rugas à minha mãe.

And as the feeling grows, she breathes flesh to my bones.

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

Somos quem amamos.

O teu corpo deitado tem um sabor raro a coisas certas.

O imediato são os olhos. Seria um lugar-comum dizê-lo, portanto, não o digo. E, porém, é a primeira coisa em que se repara, porque é impossível olhar para outro lado. Tento resistir, mas qualquer resistência é vã. Enchem tudo. Meu deus, que imensidão. Há um deslumbre, um hipnotismo naquela luz, que chega a encandear. Como se de repente o universo estivesse ali e não houvesse mais questões no mundo que importassem resolver, órbitas translúcidas que nem berlindes num vislumbre da vida que ali se reflecte tão facilmente. Uma limpidez que não quero nunca que se esgote. Uma luz que nunca saberei dizer por mais que escreva e repita esta ideia de belo, matéria interminável dos seus olhos. Sucede-lhes como a certas coisas raras, certas. Não são de dizer, só de admirar. Só de amar.

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem.

Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta.

Saramago, o único

Mas o mundo nos chama loucos.

Mais amor por favor.

É dos sentimentos mais difíceis e, talvez por isso, dos mais nobres. Não é fácil perdoar e, todavia, é das maiores necessidades que o façamos. Por estas alturas, o diálogo cristão devolve numa sonância maior o eco de amor e perdão. As igrejas estão cheias, os corações vazios.

O perdão é um sentimento exigente. Exige-se muito do perdão. Às vezes, tudo. Perdoar é, por isso, difícil. Requer uma capacidade de empatia muito grande - de novo a empatia, ela tem sempre razão -, uma cedência e uma disponibilidade que nem todos estão dispostos a permitir-se. Há quem não troque a razão pela paz, quem faça de olho por olho lema e quem prefira uma perda a um empate, pessoas a quem o orgulho fere a vista e arrefece o coração. Tenho-lhe um dó fraternal.

Que o perdão seja fácil e talvez o amor seja, um dia, possível.

Cada um tem o seu engano de estimação. O meu é o mais vulgar: voltar atrás.

Está para chegar o ano que tanto esperámos. O mesmo que se fez futuro tantas vezes aguardado e sob a luz do qual traçámos os sonhos mais bonitos, projectos de felicidade como são todos e, como lhes é próprio, embrulhados num enviesamento optimista de fazer o sorriso largo e a espera longa. Finalmente tudo despachado e a vida, cheia, sempre cheia, pronta a começar. Sem remorsos.

Porém, como ao tempo sucede por vezes acontecer, atrasou-se. Hoje, chega o ano novo que tanto esperámos mas, já não chegamos nós.

A nossa democracia, não sendo perfeita, merece um pouquinho mais de respeito.

Não gostar de Mário Soares por se discordar dele é parvo mas, legítimo. Desejar a morte de Mário Soares por se discordar dele - preferencialmente antes de acabar o ano para não se estragarem as festas - é, simplesmente, parvo.

Os Portugueses

Prestassem os políticos e demais entidades a mesma reverência para com "os Portugueses" que se denota na Casa dos Segredos - não decepcionarás os Portugueses, agradecerás aos Portugueses, decidirão os Portugueses - e Portugal seria, seguramente, um sítio diferente.

Os Portugueses

Da mitologia; figura colectiva próxima dos deuses, autónoma e com poder decisor, que surge à superfície apenas duas vezes por ano: em época de eleições e em época de Casa dos Segredos.

I thought I had you on hold.


The stars and the charts and the cards make sense only when we want them to.

Meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado.

Ler-te, escrever-te, t(r)ocar-te as vírgulas e os pontos. Fazer de ti um exercício de estilo ou de esquecimento. O corpo como a insensatez duma servidão, a melhor de todas.

“Miraré tu sombra si no puedo mirarte a ti”, dice María Magdalena, y Jesucristo responde: “Entonces yo estaré donde esté mi sombra, si allí va a estar tu mirada”.

Partia sempre em vantagem em relação aos outros: conhecia a solidão. Contudo, ao contrário dos outros, não fazia dela a sua desgraça, não a bradava ou amaldiçoava. Estabelecera com ela uma espécie de entendimento mútuo, estranhos que se acostumaram um ao outro ao ponto de quase se poder chamar a essa comunhão de rotinas uma amizade, um pouco como as pessoas que se encontram todos os dias no primeiro autocarro da manhã e se perguntam onde estará ou o que aconteceu ao senhor de bigode que invariavelmente se senta no segundo banco junto à porta traseira, do lado da janela, que não veio hoje.

Não via a solidão como aquele mal-estar que os outros anunciavam ou como um problema a resolver. Era-lhe natural como o ar, imperceptível mas, sempre presente. Reconhecia-lhe até um certo valor. Era preciso saber respirá-la com o devido mérito, apreciá-la como se faz às coisas raras, gato passeando-se entre as gentes. Vivia de bem com a sua solidão e desprezava aqueles que procuravam combatê-la a todo o custo, como se fosse uma praga de que houvesse de livrarmo-nos.

Há por aí quem fale do amor como um acto de preencher vazios, porque "ninguém gosta de ficar sozinho", ouvi ontem na televisão. Falam do amor como um objectivo, como se o amor tivesse utilidade, imaginem. Procuram um amor útil, um amor tapa-buracos, que lhes acabe com a solidão e outras falhas e lacunas. Era estes que rejeitava. Ditava-lhe a razão e a experiência que o amor, de nada faz as vezes. Porque o amor não substitui, adiciona, não completa, sobeja, não é metade se é o todo. São duas solidões que se cuidam e respeitam, como ele escreveu. Duas sombras que se conhecem bem, digo.

Amo-lhe a sombra como se a amasse a ela.

Há três tipos de pessoas no mundo: as que sabem contar e as que não sabem.

Escrevo o futuro com siglas, acrónimos variados de deslumbrar ignorantes. Servem-me para pagar as contas e pouco mais. Porém, é quando me encontro nesta casa que mais me inteiro disso mesmo. É aqui, nesta terra de pó e estrume, nortada e geada, que encontro a simplicidade de ser. O padeiro deixa o saco do pão de madrugada, o galo canta em alegria ao sol, as vizinhas assomam à janela para ver para onde foi a ambulância.

Esgotados os países, nomes e animais de que se conseguem lembrar, entretenimento que ajuda a passar o tempo (e reforça o team building, poderiam garantir alguns) enquanto se faz a escolha do tremoço, passamos para marcas de electrodomésticos. Agora, começados pela letra E. A Lourdes - que, como ela diz, deve ler-se "Lórdes" porque tem um "o" no nome - é a primeira: LG.

Não há sigla nenhuma das minhas que valha isto.

Live everyday as if it were your last and someday you're going to be right.

É o seu medo que faz o meu.

(ela a chorar pelo Tadunha que, muito consciente e envergonhado do seu estado, sabe que não passa mais nenhum Natal.)

Que digo, Pilar?


So you think you can tell heaven from hell.

"It is one of two things: either those who are in Aleppo are not considered humans or there are no humans left to see what is happening."

Choram o Cohen, Prince, agora o George Michael. Já dizia o outro que a morte de um é tragédia, a de muitos, estatística.